
Solidariedade
por Sérgio Luis Boeira
Uma homenagem a Herbert de Souza, Mário Quintana, Paulo Freire,
Krishnamurti e Jacques Cousteau
Você já percebeu que entre todos os seres vivos, entre todas as espécies, predominam
três formas de relação a de concorrência, a de antagonismo e a de
complementaridade? E que esta última, mais conhecida como "solidariedade", tem
sido a base de todas as utopias humanas? E que por mais que lute ou estude racionalmente o
assunto a humanidade permanece carente desta "qualidade de vida"? E que tal
carência nos impele à destruição tanto da vida humana quanto de outras formas de vida?
Desde que tenhamos a solidariedade como um objetivo pessoal e coletivo, por ver nesta
forma de relacionamento um caminho de transformação cultural indispensável das
sociedades fragmentadas, agressivas e massificadas -- provavelmente perguntaremos
"como desenvolver a solidariedade?". Certamente, cada um de nós, de acordo com
sua experiência e sabedoria, terá algo a dizer a respeito. Por isso, fazer esta pergunta
aos nossos colegas e amigos pode ser um bom meio de começar a encontrar a melhor
resposta.
A tradição individualista e socialmente irresponsável é muito forte e, por isso,
provavelmente teremos em nosso próprio condicionamento psíquico o maior obstáculo. Esta
é uma das razões do esvaziamento ético e do declínio humano na civilização
urbano-industrial, principalmente nas grandes cidades. E tem como resposta mais lúcida a
formação de grupos que desenvolvem formas de estimular o potencial humano utilizando
terapias, arte, ajuda-mútua etc.
O estudo da sociologia, da filosofia e da psicologia social constituem, também, formas de
desenvolvimento do potencial humano, por meio do autoconhecimento em relação social, ou
seja, do autoconhecimento coletivo como extensão da autopercepção individual.
No processo de busca da solidariedade, há uma percepção das limitações individuais no
sentido de conhecer o outro. Esbarramos no limitado conhecimento de imagens parciais sobre
o outro e, geralmente, ficamos frustrados com a não-correspondência das imagens com a
realidade, que se revela inapreensível. O outro permanece um mistério. De um lado,
portanto, temos o nosso condicionamento e, de outro, temos mistério, o desconhecido.
Para estabelecer pontes artificiais sobre esse abismo, repetimos frases, clichês,
estereótipos, crenças de todos conhecidas, e fazemos da relação social algo
inautêntico. Porém, se tivermos clareza sobre o grau de condicionamento individualista
determinado por nosso passado, teremos dado um importante passo em direção da
solidariedade. E se, além disso, percebemos a relação social como um momento
privilegiado de autoconhecimento e de aprendizado em aberto, sem fim -- teremos dado outro
passo fundamental.
A autopercepção, neste caso, inclui o outro, ou seja, o "eu" é ampliado à
condição de "nós". Suspendemos continuamente as imagens que temos do outro e
abrimos nossa autopercepção a ponto de incluir a liberdade do outro. Observamo-nos, na
relação solidária, evitando autocensura e autojustificação, permanecendo atentos à
possibilidade de ver nossa liberdade acompanhar a liberdade do outro, momento a momento,
sem expectativa de um resultado concreto, de um fim. Para isso, é preciso contar não só
com a desmistificação dos estereótipos, dos inúmeros artifícios sociais, mas também
com o propósito claro, explícito, de desenvolver a solidariedade.
Com este propósito sendo consensual, os conflitos são relativizados, diluídos, e o
silêncio ganha espaço na relação. Observe-se que, entre amigos, o silêncio não é
fator de constrangimento, como acontece nas relações entre desconhecidos ou recém
conhecidos. A solidariedade é um caminho para a amizade (amor ético), a mais bela forma
de relação social, a que mais gera valores e amplia a liberdade humana. Na
solidariedade, redescobrimos o sentido original da palavra respeito, que nada tem a ver
com temor e obediência, mas sim com atenção integral a alguém. Na solidariedade,
percebemos a beleza da partilha, da ação em conjunto. E a percepção desta beleza, em
si, suscita valores essenciais, como o amor, a paz, a liberdade, a meditação, a
evolução e a harmonia.
A solidariedade, entretanto, precisa distinguir-se da bondade, que pode ser unilateral.
Quando somos solidários, de certa forma vamos além da bondade, porque participamos de um
movimento social nascente, que pode incluir duas ou mais pessoas. A solidariedade também
difere do envolvimento romântico, porque, ao contrário deste, preserva-se na
solidariedade a individualidade do outro e a nossa própria liberdade e discernimento. O
ser solidário não é vítima do apego ou do ciúme patológico, simplesmente porque se
recusa a congelar a imagem que tem do outro e de si mesmo, podendo, por isso, estender a
solidariedade às transformações do outro, desde que haja reciprocidade.
Não havendo esta última, pelo menos num grau mínimo, não há como desenvolver-se a
solidariedade. Como se vê, trata-se de uma arte complexa, que exige extraordinária
sensibilidade e discernimento. Na solidariedade, a confusão entre qualidade e quantidade
é fatal, destrutiva. Popularidade não indica solidariedade. Não será pela extensão
superficial do rótulo de "amizade" às relações sociais com estranhos colegas
que a solidariedade fará parte de nossa vida. Ser solidário é sentir-se solidário,
além de dizer-se solidário. Descobrir, em si mesmo, um sentimento de solidariedade, é
motivo de comemoração, de confraternização, porque é algo raro e tão transformador
que geralmente é reprimido nas instituições hierárquicas, nos grupos formais.
A solidariedade é uma arte, a arte da conquista de uma relação social autêntica, que
permite o desenvolvimento do potencial humano e dele depende. É uma abertura de
horizontes no caminho, não é o caminho todo, não é um produto, mas um processo. O
mistério deste processo, entretanto, apresenta-se inteligível para os envolvidos, embora
não seja racionalizável. Exige uma inteligência diferente, interpessoal, emocional,
aberta à intuição, ao sentimento e à percepção. A solidariedade, assim concebida, é
pré-condição ao labor interdisciplinar.
Cada um de nós tem seu ritmo próprio no desenvolvimento desta arte, porque nossos
condicionamentos diferem em graus de repressão das emoções superiores, da abertura
perceptiva e de educação do raciocínio lógico. Nem sempre somos incapazes de
solidariedade por falta de percepção aguda, ou de sentimentos nobres ou de discernimento
lógico.
Geralmente ocorre uma combinação complexa destas carências, de modo que precisamos
todos compreender a necessidade não só de aprender a arte de ser solidário, mas também
a necessidade social de estimular o aprendizado de outrem. Ou seja, a solidariedade, sendo
um processo de libertação social, de autoconhecimento coletivo, não é qualidade que se
tem ou não se tem, mas que se aprende e se ensina partindo das mais variadas condições
sociais, dos mais variados ambientes ou ecossistemas.
Comentários para:

PENSAMENTO ECOLÓGICO
ecologia e ecologismo no Brasil e no mundo desde 1978...
![]()