
Ambientalismo I
por Sérgio Luis Boeira
O que se segue, na primeira parte, é uma
breve contribuição ao debate sobre
o significado do ambientalismo, no mundo contemporâneo. Outros autores, como
Eduardo Viola e Hector Leis, já escreveram e publicaram vários artigos
analisando estas idéias, o que também faço em um artigo em vias de publicação.
e-mail: slboeira@matrix.com.br
Primeira Parte
Enfoques teóricos sobre ambientalismo
1. "Grupo de Interesse":
O ambientalismo tem sido considerado um grupo de interesse particularmente nos Estados Unidos. Segundo este enfoque o ambientalismo surge nas camadas médias e altas da sociedade e é, portanto, elitista. A demanda de proteção ambiental é canalizada por meio de mecanismos regulares do sistema político (partidos, parlamento, poderes executivo e judiciário). A formação e a atuação de ONGs e movimentos de cidadãos são vistas como desnecessárias. Os "grupos de interesse" "assessoram" ou "pressionam educadamente" os parlamentares, etc. diretamente ou por meio da imprensa. Não é incomum a cooptação de integrantes dos tais grupos.
2. "Movimento Social":
O ambientalismo é considerado um "novo" movimento social principalmente na Europa. Neste enfoque, o ambientalismo aparece lado a lado com o feminismo e o pacifismo. A expansão do setor de serviços nas sociedades contemporâneas têm favorecido o surgimento destes novos movimentos de contestação, na medida em que absorvem profissionais altamente qualificados, que exigem "qualidade de vida" e "descentralização" do poder. Neste enfoque são destacados pelos autores apenas os setores radicais do ambientalismo, geralmente próximos ou associados aos partidos verdes.
3. "Movimento Histórico e Civilizatório - ou multissetorial":
Neste enfoque o ambientalismo é visto como resposta de vários setores sociais à crise da civilização - a qual implica em: crescimento exponencial da população humana, deterioração dos recursos naturais renováveis e não-renováveis, sistemas produtivos poluentes e de baixa eficiência energética, além do consumismo.
Neste enfoque o ambientalismo é visto como multissetorial, pluriclassista e transnacional, constituindo-se no conjunto de agentes potencialmente capazes de promover o desenvolvimento sustentável ou ecodesenvolvimento. Não se define como meramente social, mas sim como histórico por atingir diversos setores sociais, dentro ou fora do governo e das empresas, além de ter uma perspectiva ampla, histórica; trata-se de um movimento civilizatório por questionar os valores fundamentais da civilização ocidental (separação sujeito-objeto, razão-emoção, etc.) Outra característica que diferencia este enfoque é a constataçao da emergência de valores pós-materialistas na civilização ocidental, o que se evidencia na aproximação ecumênica das várias religiões e no interesse pela "meditação" entre os jovens (desde o movimento de contracultura, nos anos 60).
Neste enfoque, há uma "crise de percepção" entre os vários setores do ambientalismo e a necessidade de uma articulação intersetorial ou transetorial - a fim de superar-se as políticas ambientais (que são por definição setoriais) com uma ecologia política (que é por definição transetorial).
- Ambientalismo Multissetorial
É constituído por vários setores socioculturais (sem ordem hierárquica entre eles):
* Ambientalismo stricto sensu;
Associações e grupos comunitários ambientalistas, diferenciados em três tipos:
profissionais, semiprofissionais e amadores.
* Ambientalismo governamental;
Indivíduos e grupos de agências estatais de meio ambiente (em nível federal, estadual e
municipal).
* Socioambientalismo;
Organizações não-governamentais, sindicatos e movimentos sociais que têm outros
objetivos precípuos, mas que incorporam a proteção ambiental como uma dimensão
relevante de sua atuação.
* Ambientalismo dos cientistas;
Pessoas, grupos e instituições que realizam pesquisa científica sobre a problemática
ambiental.
* Ambientalismo empresarial;
Gerentes e empresários que começam a pautar seus processos produtivos e investimentos
pelo critério da sustentabilidade ambiental.
* Ambientalismo dos políticos profissionais;
Lideranças partidárias emergentes, que incentivam a criação de políticas específicas
sobre meio ambiente no setor público.
* Ambientalismo religioso ou espiritualista;
Integrantes das várias religiões e tradições espirituais que vinculam a problemática
à consciência do sagrado e do divino, enfatizando a relevância da questão ética.
* Ambientalismo dos educadores (da pré-escola, primeiro e segundo gra us)
* Ambientalismo pró-saúde;
É formado por terapeutas, mestres em artes marciais e todos os que enfatizam
o valor da saúde, considerando, em primeiro plano, a capacidade orgânica de
reequilíbrio do corpo humano (pela homeopatia, alimentação natural,
exercícios leves, acupuntura, do-in, tai-chi-chuan, etc).
* Ambientalismo dos partidos verdes;
Os partidos verdes bem ou mal têm sido a única renovação significativa dos
sistemas partidários em todo o mundo desde a 2a.Guerra. Depois da Guerra
Fria surgem como opções eleitorais cada vez mais visíveis ideologicamente,
embora a viabilidade de cada um deles seja muito peculiar.
Principal obstáculo ao desenvolvimento do ambientalismo multissetorial:
Percepção autocentrada do conjunto em cada setor ou em cada indivíduo. Em
síntese: particularismo. Houve tentativas de superação deste obstáculo
durante as articulações para a Eco-92. Mas a busca de uma visão "integrada"
ou "holística" tem resultado em fracassos constantes. Do particularismo
passa-se, muitas vezes, para o globalismo acrítico e desmobilizador. Há uma
carência argumentativa em vários setores, o que fragiliza sistematicamente o
ambientalismo multissetorial, permitindo que a grande imprensa mantenha
sobre ele uma perspectiva retrógrada.
A percepção autocentrada e a carência argumentativa se somam no sentido de
dificultar a auto-eco-organização de cada setor e do conjunto dos setores do
ambientalismo.
Conceito de auto-eco-organização
O autor que mais desenvolveu este conceito foi Edgar Morin, na obra O Método (quatro volumes). Trata-se de um macroconceito, na realidade, por que se refere ao processo de auto-(geno-feno-ego)-eco-re-organização próprio a todo ser vivo na relação com seu meio ambiente.
A auto-eco-organização ocorre tanto de forma consciente como de forma inconsciente nos seres humanos, e se refere a processos tanto individuais quanto coletivos.
No plano inconsciente, é fácil perceber a necessidade de reequilíbrio constante que ocorre naturalmente entre o corpo e a mente. Temos sono (devaneio e relaxamento), buscamos alimentação, abrigo, etc. para propiciar o reequilíbrio de nossos sistemas orgânicos (linfático, digestivo, etc.). Ou seja, os sistemas vivos precisam do reequilíbrio porque sua natural abertura ao ambiente os leva ao desequilíbrio, com a necessidade de rever constantemente a relação entre ordem e desordem. Buscamos na eco-organização dos vegetais (alimentos nutritivos) uma parcela de nossa auto-organização. Ortega y Gasset já dizia: "Eu sou eu e minha circunstância". Trata-se agora de analisar a circunstância concebendo-a não somente como um invólucro, uma contingência histórica, um sistema social, mas também como um conjunto de sistemas (ecossistemas, geossistemas) que são fundamentais para toda a organização viva.
Podemos conceber a auto-eco-organização também como um processo consciente, culturalmente aceito. Mas nesse caso, encontramos muitos obstáculos, já que a evolução cultural no Ocidente privilegiou (particularmente desde a revolução industrial) a cultura sobre a natureza, buscando um controle instrumental cada vez mais sofisticado sobre a mesma. Ora, temos descoberto, a duras penas, que na realidade continuamos a viver em função de nossa capacidade para resistir a uma completa auto-eco-desorganização. Isto vale tanto para indivíduos quanto para sociedades inteiras. Toda cultura que não compreende a complexidade da eco-organização tende a degradar esta última - e a sofrer as conseqüências disto. A consciência dita ecológica é, assim, indissociável de uma consciência do próprio corpo, do modo de vida e de uma reflexão (autoconfrontação) da concepção de mundo na sua relação com outras culturas e com a dinâmica eco-organizacional.
O princípio de auto-eco-organização pressupõe uma relação complexa do eu consigo mesmo (mim, self) e do eu com seu ambiente, ou seja, uma relação que é simultaneamente de concorrência, de antagonismo e de complementaridade. Além disso, para enfrentarmos a concepção disjuntiva e simplista que tende a degradar os ecossistemas e o próprio corpo (privilegiando a busca de controle instrumental sobre a natureza), precisamos conceber uma cultura ou um pensamento que associe sem fundir, distinguindo sem separar a dinâmica do "autos" e do "oikos", a começar pela relação sujeito-objeto e passando pela relação indivíduo-coletivo. Enfim, o conceito de auto-eco-organização vai além do conceito de autonomia, embora o pressuponha.
O conceito de organização é nuclear para todo o sistema, principalmente para os sistemas vivos, abertos, que necessitam trocar energia com seu meio ambiente, porque representa - ainda que precariamente - uma vitória da ordem sobre a desordem, da informação sobre a entropia. Mas a organização nunca se completa e, por isso mesmo, precisa ser concebida como re-organização.
Portanto, temos um processo paradoxal, que é de desequilíbrio e reequilíbrio constantes na relação dos sistemas vivos com seu meio ambiente. Nos ambientes naturais ou não atingidos diretamente pela ação humana, percebemos que este processo paradoxal se resolve por meio da complexificação crescente, aberta. Nos ambientes construídos, a relação entre cultura, tecnologia, demografia, economia, política impõe desafios a uma complexificação crescente. Talvez o primeiro desafio seja o de conceber conceitos que nos permitam ver os obstáculos a esta complexidade crescente. O desafio de contextualização dos problemas vem em seguida, já que sem a percepção dos contextos corremos o risco de submergir nas malhas dos problemas. É nesse sentido de conceber de forma abrangente e dinâmica a relação sujeito-cultura-sociedade-natureza que o conceito de auto-eco-organização pode ser útil.
A partir desta introdução, podemos perguntar:
O que seria um modo de vida auto-eco-organizado?
O que seria uma instituição auto-eco-organizada?
Na versao 33 do PECO na NET, você vai ter a Parte II
(continuação)
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