
Ambientalismo II
por Sérgio Luis Boeira
Aspectos Preliminares da
Globalização e Expansão do Ambientalismo Multissetorial
Nos anos 80 o fenômeno da interdependência conjugado ao da globalização acentua-se,
consolidando um processo que, de certa forma, foi decisivamente impulsionado logo após a
2a Guerra Mundial. O sentido globalista da Revolução Industrial do século XVII é
reafirmado, podendo-se inclusive falar em 2a Revolução Industrial.
Por etapas, temos:
Anos 50: consolida-se a globalização militar, com 2 centros polarizadores - EUA
e URSS.
Foram complexos industriais-militares intimamente ligados à ciência. A corrida
armamentista se define e se afirma com a chamada Guerra Fria. A biosfera fica sob ameaça
permanente.
Ainda nos anos 50, acentua-se a expansão das multinacionais, com uma estratégia global,
que resultará, nos anos 80, no perfil transnacional. Emerge uma classe capitalista
transnacional e um sistema econômico independente das gestões dos Estados nacionais.
Novas tecnologias favorecem a descentralização e a expansão em forma de redes.
Anos 60: processa-se a globalização dos sistemas de telecomunicações. Aldeia Global.
Símbolo maior é a transmissão direta pela TV da chegada do homem à Lua e a visão do
"planeta azul".
Anos 70: a globalização ecológica toma impulso. Passa da fase emocional para a
racional. No ano de 1968, foi realizada a Conferência da Biosfera, em Paris, e em 1972,
com a
Conferência da ONU sobre Ambiente Humano, em Estocolmo, ocorre um salto de qualidade nos
debates públicos sobre o sentido do progresso industrial e sobre o aumento da população
mundial. A tese dos "limites do crescimento" teve grande impacto na mídia
(devido à busca de temas polêmicos, sensacionais) - o que ofuscou a idéia mais complexa
de uma combinação entre a economia, a ecologia e a cultura em cada região.
Com a emergência do conceito de biosfera nas políticas públicas, o enfoque sistêmico e
interdisciplinar também ganhou importância. (Observe que há predominância de versões
conservadoras e liberais sobre o termo "sistêmico", posto em evidência por
Ludwig von Bertalanfy na "Teoria Geral dos Sistemas" e criticado - embora não
refutado - por Edgar Morin no tomo I de "O Método"; a introdução do conceito
de biosfera nas ciências humanas foi obra do historiador inglês Arnold Toynbee).
Transformações nos anos 80
A década de 80 é marcada pela confluência entre os vários aspectos da globalização:
militar, econômico, ambiental e cultural (mídia). O conceito de "sistema
global" tende, desde então, a superar o conceito de "sistema
internacional", que privilegiava a atuação dos Estados-nações. Há autores que
sustentam ser este período o início de uma 3a Revolução Industrial. Outros defendem a
tese da "pós-modernidade" contra os que, como Anthony Giddens e Ulrich Beck,
optam por caracterizar os anos 80 e o declínio do Estado de Bem-Estar como o período da
"modernização reflexiva", ou seja, uma fase da história caracterizada pela
confrontação da modernidade consigo mesma, com acúmulo de riscos e ruptura de
fronteiras - do âmbito pessoal ao planetário. Giddens define "globalização"
como ação a distância. Os contextos locais têm seus sentidos esvaziados, sendo
redefinidos pelo global e vice-versa.
Entre 1985 e 1990 ocorrem mudanças muito significativas:
1) Enfraquecimento do conflito leste-oeste devido ao avanço das forças reformistas na
ex-URSS, com a conseqüente redução do militarismo;
2) Aceleração do desenvolvimento tecnológico baseado na informação computadorizada;
3) Debilitamento da ideologia estatista (de esquerda e de direita) diante da vitória
parcial do Mercado sobre o Estado enquanto mecanismo de alocação eficiente de
matérias-primas;
4) Avanço significativo do número e da qualidade organizativa das associações e grupos
da sociedade civil diante do Mercado e do Estado;
5) Grande impulso nos mercados financeiros com o uso de novas tecnologias de comunicação
e de transporte. As empresas transnacionais (médias e grandes) são as mais beneficiadas;
6) O fax, o correio eletrônico (Internet), redes mundiais de televisão, o telefone
celular e
outras tecnologias determinam um novo ritmo de produção e de trocas em todo o mundo;
7) Emergência de problemas ambientais de âmbito global: deterioração da camada de
ozônio, aquecimento do planeta por efeito-estufa, perda da biodiversidade. Somados aos
problemas locais, regionais e nacionais, estes provocam uma transformação qualitativa no
ambientalismo, que passa de um movimento minoritário de ativistas e dissidentes para um
vasto movimento multissetorial e transnacional.
Final dos anos 80 e início dos anos 90
Como conseqüência das tendências sintetizadas anteriormente, ocorre nos final dos anos
80:
1) Desintegração do comunismo, fim do império Soviético. A Polônia elege um governo
não-comunista em julho de 89, o Muro de Berlim é derrubado logo depois, em novembro, e o
ano termina com a sangrenta Revolução Romena (dezembro);
2) Salto de qualidade da consciência ambiental. Avanço dos partidos verdes nas
eleições para o parlamento europeu. Início dos preparativos para a Conferência Rio-92;
3) Proclamação do Fim da Guerra Fria na Cúpula de Malta, na qual EUA e URSS assinam o
primeiro tratado de controle do armamentismo incluindo destruição de armas ( os
anteriores apenas disciplinaram o desenvolvimento de novas armas);
O auge do ambientalismo ocorre entre 1990 e 1992. Nos primeiros meses de 90 é preparada a
celebração do "Earth Day" (Dia da Terra). Em abril de 1970, o "Earth
Day" é
exclusivamente celebrado nos EUA, enquanto que, em 1990, o auxílio das novas tecnologias
de comunicação, as ONGs conseguem "globalizar" o evento.
Em janeiro de 90, uma gigantesca conferência multissetorial sobre problemas
socioambientais é realizada em Moscou, por iniciativa de Gorbatchev, que lança a idéia
de se criar a Fundação "Cruz Verde International" (da qual hoje ele é
dirigente).
Na Conferência do G7 (grupo dos sete mais ricos: Alemanha, França, Canadá, EUA,
Inglaterra, Japão e Itália) a Alemanha supera os EUA na liderança das iniciativas
ambientais.
Em agosto de 90, o Iraque invade o Kuwait e a mídia substitui a problemática ambiental
pela "crise do Golfo Pérsico" (600 poços de petróleo incendiados e 200 mil
mortos,
aproximadamente).
O Brasil começa a transformar-se no palco dos debates da Rio-92 por meio dos preparativos
ao Fórum Global, realizados pelas ONGs e movimentos sociais. O ambientalismo
multissetorial toma maior consciência de sua diversidade, surgem lideranças nacionais e
muitas disputas internas pelo poder (frágil, mas com destaque
na mídia).
As Universidades de um modo geral começam a perceber a falta de investimentos em
educação ambiental e num enfoque decididamente inter e transdisciplinar. Mudanças
superficiais são providenciadas nos programas das disciplinas, visando abrir um espaço
para a "questão ambiental". Em decorrência da predominante ignorância
ambiental da maioria dos doutores e pesquisadores universitários, o ambientalismo avança
de forma lenta e fragmentada nas universidades - que tradicionalmente tem se mostrado
conservadoras (particularmente no Brasil).
O ambientalismo autônomo que, ao lado do ambientalismo acadêmico, dá origem ao
ambientalismo multissetorial, vê-se tomado de perplexidade durante e após a Rio-92. O
ambientalismo empresarial, que tanto resistiu a investir na prevençao da poluição,
descobre finalmente que pode fazer matéria-prima desta e obter novos mercados na medida
em que os consumidores se tornam mais seletivos. Os empresários tomam as rédeas do
processo de "conscientização ambiental", deixando na sombra os demais setores.
O ambientalismo multissetorial, assim, toma desde a Rio-92 um rumo setorial, afunilando-se
em torno das prioridades propostas pelo setor empresarial. Se, por um lado, isto significa
um certo avanço ideológico dentro do liberalismo, que redescobre o potencial da
natureza, por outro lado representa um declínio do ambientalismo como um todo, um
processo que se resume em afunilamento e dispersão: afunilamento das prioridades na
agenda pública, com força crescente dos empresários; e dispersão das ações efetivas
em educação ambiental e lutas dos diversos setores do ambientalismo.
Em síntese, poderíamos traçar o seguinte gráfico da ascensão
e queda do ambientalismo multissetorial:
------------------------------------- 1990 -- 1992 --------------------------------------
----------------------------------------------------- 1995 --- 1998 ---------------------
------------------------------ 1985 ------------------------------------------------------
----------------------- 1972 -------------------------------------------------------------
Bibliografia básica:
McCORMICK, J. Rumo ao paraíso (a história do movimento ambientalista).
Relume Dumará, RJ, 1992. - ![]()
MORIN, E. & KERN, A .B. Terra-pátria. Ed. Sulina, Porto Alegre, 1995. - ![]()
GIDDENS, A ., BECK, U., LASH, S. Modernização reflexiva (política, tradição e
estética na ordem social moderna). Ed. Unesp, SP, 1997. ![]()
VIOLA, E. "A expansão do ambientalismo multissetorial e a globalização da ordem
mundial, 1985-1992". XVI Encontro Anual da Anpocs, Caxambu, MG, 1992. ![]()
SCHMIDHEINY, S. Mudando o rumo (uma perspectiva empresarial global sobre desenvolvimento e
meio ambiente). FGV, RJ, 1992. ![]()
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