Pensamento Ecológico
apresenta
editorial do jornal O Globo,
de 17 de junho de 1997

Crueldade repudiada

A farra do boi...
...prova apenas que um erro pode atravessar os séculos

O Supremo Tribunal Federal, em decisão que soa como música para quem abomina qualquer forma de crueldade, pôs na ilegalidade a farra do boi, bárbaro costume herdado dos imigrantes açorianos que colonizaram o litoral de Santa Catarina. Contrariando entendimento da Justiça catarinense, que a considerava manifestação cultural, quatro dos cinco ministros que examinaram o assunto entenderam que não passa de "prática cruel contra animais".
O folguedo, que só pessoas destituídas de imaginação consideram inocente, é uma dessas práticas herdadas que melhor serviriam ao Brasil se nunca tivessem atravessado o Atlântico; e à Humanidade, se nunca tivessem existido.
Alegar, por exemplo, que a farra do boi é tradicional prova apenas que um erro pode atravessar os séculos. Dizer que é popular demonstra que nem tudo que é popular é, por definição, imune a exame crítico. E compará-la à tourada espanhola não lhe confere dignidade; talvez apenas mostre em que se transformaria a paixão hispânica se lhe tirassem o ritual hipnótico das capas e bandarilhas coloridas.
É difícil aceitar como fato que a comunidade açoriana precise maltratar periodicamente animais para preservar sua identidade cultural. Nada poderia estar mais distante do espírito cristão do que festejar a Semana Santa torturando bois e vacas.
Quem sustenta que a sádica brincadeira é um equivalente da malhação de judas, e por isso deve ser tolerada, esquece que, ao contrário do boneco, o boi apedrejado, espancado, com os chifres quebrados e o rabo torcido, é um ser vivo que sangra e sente dor.
Seja qual for a explicação histórica, antropológica, sociológica ou psicológica, a farra do boi é, em última análise, aquilo que parece ser à primeira vista: um ato de extrema crueldade. Faz parte da longa lista de rituais de origem obscura, que rolam pela História por inércia, são passados adiante só porque foram recebidos, e revelam a existência de um fundo de renitente primitivismo na psique humana.
É uma versão mais impediosa dos maus-tratos infligidos a animais indefesos mundo afora, desde as mulas da Ilha de Santorini aos camelos de certos países árabes e os jumentos do interior do Brasil. Tem afinidade com as brigas de galo e de canários, o sacrifício de aves e carneiros em rituais religiosos, a morte de cães em água fervendo nas cozinhas de gourmets sul-coreanos. E nasce do mesmo espírito que em outros tempos levava à imolação de virgens para aplacar a ira dos deuses e ao sacrifício de cristãos nas arenas para satisfazer o sadismo da plebe. Deixar para trás esses hábitos condenáveis é subir um degrau na escala da evolução.
Os brasileiros, por intermédio da mais alta instância jurídica do país, oficializaram o seu repúdio à farra do boi. Resta às autoridades de Santa Catarina, que já tentaram proibí-la e voltaram atrás, aplicar a lei.


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