Estudo prevê destruição na Amazônia
Projetos como ''Avança Brasil'' poderão trazer 
conseqüências drásticas à preservação
artigo de Mariana Timóteo da Costa, para “O Globo”, de 19/01/2001
Em 2020, a Amazônia brasileira poderá ter apenas 5% de sua vegetação intacta e 42% de seu território completamente desmatado. É o que mostra um estudo liderado por centros americanos e pelo Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (Inpa). Segundo a pesquisa, que será publicada hoje na revista "Science", o projeto "Avança Brasil" - que até 2007 deverá investir mais de US$40 bilhões em melhoria de estradas, construção de linhas de trem, redes hidrelétricas, de energia e canalização de rios - poderá ter conseqüências drásticas para a Amazônia.

Entre os resultados da urbanização estão aumento da área desmatada, maior densidade populacional em regiões remotas e destruição da fauna local. Segundo os cientistas, as queimadas trariam prejuízos de até US$ 2 bilhões por ano ao Brasil, que teria menos cotas de carbono para vender aos países ricos. Os países ricos são os maiores produtores mundiais de gases de efeito estufa e recorreriam a esta estratégia para conter o aquecimento global.

Computador fez previsões para daqui a 20 anos

Os cientistas passaram cinco anos analisando imagens de satélite e documentos sobre a expansão humana na Amazônia, pertencentes, entre outros, ao governo brasileiro e ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Um poderoso software de computador foi capaz de calcular o impacto dos processos de colonização sofridos pela região entre 1985 e 2000, e como ela se comportaria se sofresse influências semelhantes nos próximos 20 anos.

- Percebemos que o cenário não é nada favorável e as melhorias das condições de vida da população e da economia local são irreais, se levarmos em conta a preservação ambiental. Se hoje se destrói dois milhões de hectares por ano, com a pavimentação ou construção de mais estradas, por exemplo, o índice poderia crescer até 25% ao ano até 2020 - disse ao GLOBO o cientista americano Wiliam Laurance, do Smithsonian Tropical Research Institute, um dos centros envolvidos na pesquisa.

As projeções foram divididas em dois grupos: otimistas, caso o "Avança Brasil" poupe áreas protegidas e controle o desenvolvimento, e pessimistas.

- As projeções pessimistas corresponderiam aos processos que estão em andamento na Amazônia desde os anos 60. Podemos tomar como exemplo a expansão demográfica, que não foi controlada. A população aumentou de dois para 20 milhões de pessoas desde então - disse Laurance.

Responsável pelo "Avança Brasil", a Secretaria de Planejamento e Investimentos Estratégicos do governo já tomou conhecimento da pesquisa e enviou, há dois dias, técnicos para reunirem-se com os cientistas.

- Aceitamos sugestões, mas desconfio da precisão do estudo por conta dos dados nele utilizados, alguns bastante ultrapassados - disse o secretário José Paulo Silveira, um dos idealizadores do "Avança Brasil", lembrando que o governo não pretende construir mais novas estradas e sim melhorar as já existentes. - Não podemos deixar a população local numa redoma de vidro apenas em prol da preservação da floresta. O desenvolvimento precisa ser sustentado.

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