Por essa Darwin não esperava:
os anos 80 e 90 retratam a
involução da espécie
Por Sérgio Augusto
Na música, na TV e em todas as áreas da cultura,
nível cai assustadoramente
Baixou o nível. Muito, muito mesmo. Quantas vezes, nos últimos tempos, ouvimos alguém dizer isso? Eu já perdi a conta. Não adianta sofismar, tergiversar, subterfugir, lembrando que sempre foi assim, que no passado também havia muita porcaria, que a decadência não é uma exclusividade dos anos 90, que fim de milênio é assim mesmo & evasivas que tais. Nada disso encobre, e muito menos indulta, o fato de que o nível geral baixou tremendamente nas décadas de 80 e 90, atingindo até instâncias que pareciam impermeáveis ao declínio, como a música popular e a publicidade, e tomando de assalto antigos redutos de sanidade e refinamento, como as FMs.
Que grande novidade nossa música nos deu ultimamente? Quantos "casais Unibanco" ainda teremos de aturar vendendo tudo quanto é produto? Vocês já notaram como?...,bom, deixa pra lá.E ainda nem tocamos no fenômeno Carla Perez, a esteatopígica mais superestimada do planeta. (esteatopígico é quem tem a bunda gorda.) O sucesso dessa moça, sobretudo na proporção em que se deu, é uma das provas mais contundentes da deterioração de nossa cultura popular - e, por tabela, daquilo que um trocadilhista francês chamaria de "culture". Mais vulgar e inepta, impossível. Volte, Gretchen! Nós perdoamos tudo.
Carla Perez, Tiririca, Mamonas Assassinas, Gerasamba, Raça Negra, Só Pra Contrariar, Calango Aceso, Ana Maria Braga, Raul Gil, Sula Miranda, Renato Barbosa - convenhamos, é muita porcaria para uma geração só. E ainda nem falamos nas contribuições do rock, do funk e do rap. Nem na bestagem de cuja prática o sumomurídeo do grupo punk Ratos de Porão, João Gordo, tanto se orgulha, apesar de já ter idade para entender e gostar de coisas menos pueris. Coerente com suas convicções, João Gordo disse a este jornal, cinco meses atrás, que o humor do Tiririca, pasmem de novo, é inglês. Oh, Fatso, give me a break, will´ya? Tiririca não tem humor, é apenas grotesco. Um país que teve Piolim, nosso clown modernista, e Carequinha só pode consagrar um pateta como Tiririca num momento de extrema penúria cultural. Ao contrário do que Darwin disse, involuímos feio.
Planet Hemp e Cole Porter têm apenas o tema em comum
Sei que o que vou fazer agora é covardia, um golpe baixo, mas não me resta alternativa. Vou comparar uma música do novo disco do badalado Planet Hemp e outra de um sujeito chamado Cole Porter, gravada por uma porção de gente há mais de 60 anos. Ambas falam de drogas. Com vocês, o cantor Marcelo D2: "Eu canto assim porque eu fumo maconha/(...)Na cabeça ativa/a mente aguçada mermão/eu sei que isso te espanta/mas eu continuo/queimando tudo/até a última ponta". E agora, para as devidas comparações, Cole Porter: "I get no kick from champagne/Mere alcohol doesn´t thrill me at all/So tell me why should it be true/That I get a kick out of you/Some get a kick from cocaine/I´m sure that if I took even one sniff/That would bore me terrific´ly too/Yet I get a kick out of you".
Baixou demais o nível, não baixou?
Despejar a culpa na pasmaceira reinante em todo final de século é mais do que varrer a sujeira para debaixo do tapete ou enfiar a cabeça na areia, é render-se a uma mistificação, a uma balela histórica. Fim de século nunca foi sinônimo de apatia criativa. Basta lembrar o que os últimos anos dos séculos passados nos legaram em arte e pensamento.Para azar nosso, a baixaria é universal. E vem se manifestando de forma avassaladora na matriz, os Estados Unidos - os Estados Unidos de Jim Carrey, Beavis, Butt-Head, Debi e Lóide. Quem lá vive ou por lá passou faz pouco tempo pode confirmar: raras expressões circulam com mais freqüência na mídia que "dumbing dows". Ou seja, também os americanos não param de reclamar do baixo nível que impera no cinema, na TV, na música, na imprensa, no teatro e, sobretudo, no ventre disso tudo, a educação. A expressão é antiga, só um ano mais velha que a "I get a kick out of you", e deriva de um substantivo ("dumb") com duplo sentido (mudo ou idiota). Surgiu da boca de um redator de programas humorísticos, após um extenuante esforço para reescrever um texto considerado inteligente demais pelo dono da rádio. "Aqui está o texto, devidamente dumbed dows", disse o redator.
Melhor título, portanto, não poderia ter uma recente coletânea de ensaios sobre a imbecilização da América, editada por Katharine Wahsburn e John Thornton: "Dumbing down: essays on the strip mining of American culture". Cada texto se ocupa de um aspecto do nivelamento por baixo. Os autores batem firme nos filmes agressivamente idiotas de Hollywood, nas estúpidas comédias de TV e do cinema, nos telejornais que tudo espetacularizam, nos danos causados pelo politicamente correto, pelo culto ao relativismo e pela obsessão com assédio sexual nas escolas e universidades, na epidêmica falta de educação dos jovens, na exaltação à grossura de desenhos animados, na distorção de prioridades de várias instituições culturais etc. Um vasto espectro, sem dúvida, pois vasta tem sido a devastação produzida pela entropia pop e a pedagogia pós-moderna.
Um dos autores do livro, Ken Kalfus, fala do choque que levou ao revisitar o Planetário Hayden, em Nova York, de prestígio internacional. Com várias lâmpadas queimadas, sua única atração bem conservada era uma sala que abrigava a nave Enterprise, da série "Jornada nas estrelas". O mínimo que se pode dizer dessa promiscuidade científico-fantasiosa é que ela diverte mas não educa - conclui o ensaista.
Estudantes de hoje são zumbis ligados na Internet
Há 75 anos, quando o Homo sapiens ainda não havia sido substituído pelo Homo debilis, H.G.Wells reduziu a história humana a uma disputa entre a educação e a catástrofe. Em muitos lugares, elas jogam com a mesma camisa, por culpa do laxismo de certos professores, para os quais nem as regras gramaticais precisam ser respeitadas pelos alunos, a maioria "screenagers", adolescentes chapados por horas e horas de videogames e Internet, muitos dos quais só conseguem aguçar a mente queimando tudo até a última ponta. Filhos do caos, zumbiz do século XXI, o máximo que nos podem oferecer, quando se tornam artistas, é um "dumbing up". Para bom entendedor, um exemplo basta: Bon Jovi cantando um clássico de Frank Sinatra é um caso típico de "dumbing up".
Por Sérgio Augusto, para o jornal O Globo de 21 de junho de 1997
PENSAMENTO ECOLÓGICO
ecologia e ecologismo no Brasil e no mundo desde 1978...
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