"O homem ambiciona a imortalidade"
Entrevista com Lucien Sfez, sociólogo
francês
por Daniel
Hessel Teich, para o jornal O GLOBO. em 12 de
setembro de 1996. Lucien Sfez
veio ao Brasil (setembro de 96) estudar o impacto das novas teorias de manipulação
genética e criação de vida artificial.
São Paulo. Especialista na análise das
tecnologias de comunicação, o sociólogo francês Lucien Sfez, professor da Universidade
de Paris I, dedicou os últimos cinco anos de sua vida ao estudo de uma nova obsessão
humana: a utopia da saúde e do corpo perfeitos. Ele tem analisado os projetos Genoma
Humano (que pretende identificar todos os genes humanos até 2015), O Biosfera 2
(reprodução artificial da natureza numa imensa estufa no Arizona) e o Vida Artificial
(tentativa de criar em computador uma forma de vida totalmente artificial) e concluiu que
os três formam a base da crença de que a biotecnologia e a ecologia podem ajudar o homem
a alcançar a imortalidade.
Sfez, que acaba de lançar no Brasil o livro "A saúde perfeita", veio estudar
no país o impacto dessa nova visão da ciência.
P: O senhor pesquisou durante muito
tempo os processos de comunicação e agora partiu para a elaboração de uma teoria
completamente diversa deste assunto, sobre a utopia da saúde perfeita. Como se deu essa
transição?
SFEZ: Durante 25 anos estudei a forma como a
comunicação vinha ocupando cada vez mais espaço como ideologia, e principalmente, como
forma de intermediar a solução para muitos problemas. Enquanto a esquerda dizia que esse
papel cabia à História e à direita o atribuía ao mercado, a comunicação foi
crescendo e derrubando antigos conceitos. Atualmente, estamos num ponto em que a Internet
e o desenvolvimento da informática são vistos como o máximo em democratização e
acesso à informação. No entanto, é evidente que isso é um processo transitório e
deve durar no máximo cinco ou dez anos.
P: Mas a impressão que se têm é de
que esse processo está apenas começando - pelo menos num país como o Brasil - e que
está em plena expansão. O que o leva a apostar nessa transitoriedade?
SFEZ: A questão é a seguinte: as pessoas
cada vez mais estão tomando consciência de que a comunicação é apenas uma parte de
nossas vidas enquanto o corpo e a saúde são a vida em si. O homem ambiciona a
imortalidade e, por isso, só poderia se voltar para essa utopia, a do corpo perfeito, a
do mundo puro. É ela que vai resolver seus problemas.
P: No entanto, a concepção que se tem de utopia é aquela de um
ideal incansável e o senhor cita projetos bem concretos e que estão apresentando alguns
resultados. Qual é o seu conceito de utopia?
SFEZ: A utopia atual é diferente daquela
utopia literária e filosófica que todos conhecemos bem. É a chamada utopia técnica,
baseada no senso americano de project, um programa com o objetivo de ser realizado de fato
e associado a um amplo trabalho de comunicação por trás, seja por telefone ou Internet.
De fato, projetos como o Genoma Humano, Vida Artificial ou Biosfera 2 são utopias, já
que apresentam todas as suas caraterísticas. Implicam primeiramente em isolamento, seja
em laboratórios ou em estufas de vidro. Depois, como nas demais utopias, consistem num
absoluto controle do narrador sobre seu discurso, em que a comunidade científica dita
regras e a sociedade imediatamente aceita. Têm explicito o conceito de higienização,
evidenciado na idéia do corpo geneticamente são e do planeta ecologicamente limpo. Ainda
há o conceito de que a técnica vai reger absolutamente tudo e que regulará o
conhecimento, a política e a solução de todos os problemas. Esses projetos também têm
o objetivo máximo de criar um novo homem, próximo ao conceito do super-homem de
Nietzche, com um paraíso terrestre artificial a reboque.
P: Com isso então pode-se concluir que em vez de filósofos
teríamos cientistas desempenhando o papel de artífices dessa nova utopia?
SFEZ: Exatamente. São eles os managers, os
engenheiros desses processos regidos pela medicina biomolecular, pela biotecnologia e
bioengenharia. Um exemplo que gosto de citar é o caso do Dr. Kellog, que criou na década
de 30 os sucrilhos, imediatamente alçados à categoria de alimento ideal e consumidos
até hoje em todo o mundo como uma das mais ricas fontes de nutrição.
P: Países em desenvolvimento como o Brasil adotariam a utopia da
saúde perfeita?
SFEZ: Essa é uma questão que eu pretendo
resolver com meus próximos estudos. É uma pergunta para a qual ainda não tenho
resposta. Mas acredito que isso já esteja acontecendo no Brasil, pelo menos na parte rica
do país.
P: Além do Brasil, o senhor pretende estudar outros países?
SFEZ: Escolhi o Brasil por considerá-lo um
impressionante paradoxo entre riqueza e pobreza, com uma população apaixonada pelo novo,
pelo que vem de fora. O Brasil foi a minha opção de estudo dentro da América Latina.
Mas pretendo analisar também o mesmo processo em países como o Vietnam, que acabou de
sair de um regime fechadíssimo. Na África devo estudar o Senegal ou a Costa do Marfim,
por serem países com economias emergentes em meio à miséria geral do continente
africano.
P: O senhor costuma ser muito crítico em relação ao Projeto Genoma
Humano, afirmando que os cientistas têm ambições muito perigosas dentro de seu projeto
de limpeza do corpo e cura. Qual a razão de suas críticas?
SFEZ: E de fato os cientistas têm mesmo
alguns objetivos perigosos. Ouvi de um ganhador do Prêmio Nobel, o geneticista Walter
Gilberts , que com o mapa do genoma nas mãos ele traça toda a história de uma pessoa.
Isso é um absurdo, já que por mais propensa que essa pessoa seja a apresentar doenças
de cunho genético, ela acaba sofrendo interações com o meio ambiente, que podem mudar o
seu destino. Da mesma forma, li em revistas cientificas, e não em publicações leigas,
que em breve o homem poderá encontrar e manipular combinações genéticas que
determinariam propensões ao banditismo, alcoolismo, homossexualismo e até mesmo a
tendência de uma pessoa se tornar sem-teto. Isso é uma loucura. Mas, de maneira alguma
acho o Projeto Genoma uma coisa ruim, muito pelo contrário. Ele está trazendo progresso
fantásticos à medicina e deve apresentar possibilidades de cura pela terapia genética
até então impensáveis. O que eu critico é o discurso. Uma coisa é a técnica, outra
é o tecnólogo ou aquele que elabora um discurso sobre a técnica. Discursos como o que
eu ouvi de um especialista americano, que defendia a teoria da purificação genética, em
que genes ruins seriam trocados totalmente por genes bons.
P: E o programa Vida Artificial? Quais as suas impressões sobre esse
projeto que pretende criar por meio do computador seres virtuais capazes de nascer,
crescer e se reproduzir?
SFEZ: É mais um delírio americano. Os cientistas do
Instituto Santa Fé, no Novo México, pretende criar o sucessor do homem, uma espécie de
robô dotado de um senso de faltas e de autopunição como regulador de conduta.
Na verdade, é uma tentativa do homem se transformar em Deus.
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