| Arte com semente da revolta Krajcberg lança livro sobre sua obra e diz que a guerra fez dele um homem isolado artigo de Daniela Name, para "O Globo", de 18/01/2000 |
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| Não foi a religiosidade nem a necessidade de tempo para criar que
fez Frans Krajcberg viver boa parte da vida sozinho. O escultor, cuja
obra monumental feita de restos de árvores queimadas ganhou fama no
mundo inteiro, tem uma explicação mais simples - e muito, mais dura
- para o seu lendário isolamento.
- Vivo este tempo todo sozinho porque tenho medo. Passei a minha vida inteira fugindo do homem - explica o escultor, que no dia 28 lança na GB Galeria de Arte, em Copacabana, um livro de arte em dois volumes sobre sua obra. O livro é uma produção da GB, com patrocínio da Petrobras e ensaio do crítico de arte Frederico de Morais. No primeiro volume, "Natureza", o leitor percorre tcdas as fases da carreira do escultor; no segundo, "Revolta", conhece o Krajcberg fotógrafo, que perambulou o Brasil inteiro com sua máquina registrando abusos contra o meio ambiente. Família foi dizimada por nazistas A "revolta", explica, é o motor de toda a sua obra e o combustível que o mantém de pé. Não se trata de uma raiva militante e panfletária, mas de uma espécie de ética que o faz permanecer vivo. Ele nasceu em 1921, na pequena cidade de Kozienice, na Polônia. Em 1939, estava na fronteira com a Alemanha quando a Segunda Guerra estourou e o exército nazista invadiu a Polônia. Quando voltou para casa, não encontrou mais a família: pai, mãe e quatro irmãos foram presos e mortos nos campos de concentração. - Cheguei a visitar o campo e tentar reconstituir o que aconteceu durante aqueles dias, mas não consegui ir muito além do fato de que eles morreram - lembra ele. - O que mais me agoniza é que não consigo me lembrar do rosto da minha mãe. Mas é com inacreditável bom humor que ele lembra sua saga até chegar ao Brasil: entrou para o exército russo para fugir do nazismo; estudou engenharia hidráulica e belas artes em Leningrado (hoje São Petersburgo); chegou à Alemanha em 1945 para estudar pintura com Willy Baumeister; três anos depois, viveu quatro meses em Paris na mais extrema penúria. E foi salvo pelo pintor Marc Chagall, que lhe comprou um bilhete de terceira classe para vir ao Brasil. Em troca, se fez passar por marido de uma amiga húngara do artista. - Para viajar, ela precisava de um marido. Fui ao consulado húngaro dizer que me casaria com ela, mas nunca mais soube o nome daquela mulher - conta ele, que chegou ao Rio e, sem ter onde morar, passou uma semana dormindo ao relento, na Praia do Flamengo. - Depois fui para São Paulo e fui recebido por Volpi e Segall. Naquele tempo, os artistas eram muito solidários. Formávamos um grupo que discutia arte em vez de pensar apenas em venda e mercado. No Paraná, choque com queimadas Krajcberg já tinha participado com pinturas de uma Bienal de São Paulo e de um Salão Paulista quando foi morar no meio da mata, como empregado das Indústrias de Papel KIabin. Lá viu a primeira queimada. E lá também teve certeza de que sua obra nunca mais seria a mesma. - Meu primeiro pensamento foi: "A guerra continua" - diz. - Havia dias em que era tanta fumaça que não se conseguia ver a luz do sol. O cenário, aquela terra arrasada pela destruição, era o mesmo dos campos de batalha. E me perguntava que ser terrível era o homem, capaz de fazer aquilo. A arte foi a maneira que encontrei para reagir.
O livro editado pela GB mostra que Krajcberg percorreu uma longa estrada até chegar às peças monumentais feitas de restos de queimadas. Em 1958, viveu sozinho numa gruta em Ibiza na Espanha, onde começou a fazer pequenos relevos com pedras. Voltou a Paris nos anos 60, expôs no Beaubourg e viu que, precisava lidar com a natureza de uma outra forma: - Fazia peças muito românticas e comecei a sentir que precisava encontrar um modo de exprimir minha revolta e de denunciar tudo o que estava acontecendo. Comecei, então, a fazer grandes viagens, para fotografar os abusos. Andei o país inteiro e continuo convicto de que não existe lugar com maior riqueza do que o Brasil. Foi no Paraná a primeira vez que me senti melhor. A natureza me mostrou uma vida nova e me deu uma alegria muito grande, que minimizou os traumas que eu trazia da Europa. Descobri que tudo o que o homem faz ou julga saber existe na natureza de uma maneira muito mais perfeita. "Jurei nunca mais pisar no Acre, um lugar terrível" Fotografando pelo país inteiro as arbitrariedades contra a natureza, Krajcberg colheu o material que está no volume "Revolta". E descobriu que "o país mais lindo do mundo" é também o mais inconsciente: - Ninguém sabe menos sobre, si mesmo e o que possui do que o brasileiro. E por isso ninguém ignora mais os crimes contra sua riqueza. Não me considero um fotógrafo, mas capturo tudo o que me apavora, para não esquecer e para denunciar. Jurei, por exemplo, que nunca mais piso no Acre, um lugar terrível. Dona da GB Galeria de Arte, Márcia Barrozo do Amaral diz que a etapa mais difícil da produção do livro foi selecionar as cerca de cem imagens de "Revolta''. - Foi um desafio, porque tínhamos um universo de cerca de 20 mil cromos do acervo de Krajcberg desafio e tudo era bom - diz Márcia, que fez visitas ao ateliê do artista, na cidade baiana de Nova Viçosa, ao lado da designer Ruth Freihof, que assina o projeto gráfico do livro Nas montanhas de Minas, o divisor-de-águas da carreira O outro volume, "Natureza", trata da obra escultórica do artista e contém o ensaio de Frederico de Morais, que mostra como a paisagem de Minas Gerais apontou um novo caminho em sua carreira. Em Ibiza, Krajcberg evoluiu das paisagens monocromáticas para as cores quentes tiradas dos pigmentos minerais. E começou a sobrepor pedras e raízes retorcidas. - Minas foi o turning point na carreira de Krajcberg - acredita Frederico. Em 1964, Krajcberg instalou um ateliê ao ar livre em Cata Branca, no sopé do Pico do Itabirito. Hoje se divide entre Nova Viçosa e um pequeno ateliê em Paris, mas nunca abandonou os pigmentos mineiros, que apresentou a artistas como Carlos Vergara e Luiz Phillipe Carneiro de Mendonça. - Minas é um lugar que me ensina e um prazer sempre renovado - diz ele. artigo de Daniela Name, para "O Globo", de 18/01/2000 |
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