Pensamento Ecológico
apresenta:
José Augusto Pádua
em
Preocupação Ecológica
é antiga no país

Tese de historiador demonstra que destruição ambiental
atiçava reflexões de intelectuais desde o período colonial.
De Francisco Luiz Noel para o Jornal do Brasil de 22 de março de 1998

Com a floresta à mercê da motoserra, o senso comum de que o pensamento ecológico no Brasil nasceu nos anos 70, importado dos ambientalistas europeus e norte-americanos, acaba de ser posto por terra. A derrubada é obra do historiador e cientista político José Augusto Pádua, de 38 anos, que, em tese apresentada no Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro, revolveu as raízes da ecologia nacional antes da Proclamação da República, em 1889. Conclusão: desde o fim do século 18, em plena Colônia, a destruição ambiental atiça reflexões e denúncias de intelectuais brasileiros.

A degradação do berço esplêndido - Um estudo da tradição original da ecologia política brasileira (1786-1888) é resultado de pesquisa de José Augusto Pádua em 150 documentos, numa caçada historiográfica em bibliotecas como a Nacional, no Rio, e a Mário de Andrade, em São Paulo. No trabalho, que lhe deu o doutorado em ciências políticas no Iuperj, Pádua enumera 38 autores que, desde os tempos coloniais, buscaram diagnosticar e conter a devastação do território. Antes deles, o português Frei Vicente de Salvador já denunciara, em 1667, o descaso ambiental na terra do pau-brasil.

Pioneiro - O primeiro registro minucioso do estrago imposto pela colonização aos recursos naturais do Brasil é de 1786, quando o baiano Baltasar da Silva Lisboa, doutor em direito formado pela Universidade de Coimbra, em Portugal, publicou seu Discurso histórico, político e econômico dos progressos e estado atual da filosofia natural portuguesa, acompanhado de algumas reflexões sobre o estado do Brasil. Lisboa condena, entre as danosas práticas agrícolas atribuídas à ignorância de brasileiros e reinóis, a destruição das florestas da Mata Atlântica pelo avanço dos engenhos de açúcar.

Como Baltasar da Silva Lisboa, os outros autores preocupados com a devassa ambiental na Colônia e no Império compartilhavam crença comum no avanço científico. "Eles entendiam que a destruição era resultado do atraso, e não do progresso, como se fala hoje em dia", assinala José Augusto Pádua, professor do curso de pós-graduação em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

José Augusto Pádua observa que as reflexões ambientais dos pioneiros em nada ficam a dever à tese do desenvolvimento sustentável preconizada pela moderna ecologia política. "Era um ambientalismo político, discutido sob o ponto de vista da constituição da nação. Eles se preocupavam com o impacto da destruição na construção do país", afirma.

Alertas - Além da derrubada de matas e da erosão dos solos, o risco de extinção de espécies animais e vegetais também era alvo dos primeiros pensadores da ecologia brasileira, críticos da crença dos pescadores de baleias de que era preciso matar os filhotes para atrair e capturar os cetáceos adultos. Na pesquisa, José Augusto Pádua diz que, em pleno século 18, esses intelectuais foram pródigos em alertas sobre o risco da destruição irreversível dos recursos naturais. "Em 1799, por exemplo, José Gregório de Moraes Navarro já percebia a insustentabilidade de várias atividades econômicas do Brasil Colonial."

Navarro e Lisboa integravam o grupo de seis pioneiros da ecologia política brasileira - todos formados em Coimbra. Inspirados pelo italiano Domingos Vandelli, professor renomado que defendia o racionalismo iluminista no trato da natureza, os seis incluíram a questão ambiental nas reflexões a que se lançaram de volta ao Brasil, embora estivessem longe de cogitar em independência da colônia em relação a Portugal.

Ao grupo estava ligado um dos três grandes paladinos da defesa do meio ambiente do Brasil pré-republicano: José Bonifácio de Andrade e Silva. O cientista político destaca que José Bonifácio se diferencia dos seis por inserir na discussão ecológica o fenômeno da escravidão. "Ele fez uma síntese das críticas, aprofundando-as, e tocou na ferida. Enquanto existisse escravidão, o Brasil estaria sendo destruído."

Papel semelhante foi desempenhado no fim do Império pelos também abolicionistas Joaquim Nabuco e André Rebouças, que restabeleceram o nexo entre escravidão e depredação ambiental. Referindo-se à agricultura escravagista, Nabuco escreveu, após a abolição: "O caráter de sua cultura é a imprevidência e a rotina, a indiferença pela máquina, o mais completo desprezo pelos interesses do futuro, a ambição de tirar o maior lucro imediato com o menor trabalho próprio possível, qualquer que seja o prejuízo às gerações seguintes." Não foi por falta de aviso que, um século depois, o Brasil se vê às voltas com problemas ambientais ainda mais graves.

OS PRECURSORES

"E isso não têm só os que de lá vieram, mas ainda os que cá nasceram, que uns e outros usam da terra não como senhores, mas como usufrutuários, só para a desfrutarem e a deixarem destruída."
Frei Vicente de Salvador, em 1697

"É incompreensível a imensa quantidade de lenha que inutilmente consome a feitura do açúcar pela construção das suas fornalhas, pois que para uma carrada de cana se requer outra de lenha."
Baltasar da Silva Lisboa, em 1786

"Portanto creio que interessará muito ao estado expedir não ordens meramente, porque algumas já as tem expedido, se bem que sem proveito, mas ministros que vigiem e regulem o corte de madeiras indistintamente, obrigando os proprietários dos terrenos marítimos a conservar ilesas as de construção, que ocupando uma parte pequena do seu terreno não danificam por certo a sua cultura."
Manuel Ferreira da Câmara Bittencourt e Sá, em 1789

"O agricultor olha ao redor de si para duas ou mais léguas de matas, como para um nada, e ainda não as tem bem reduzido a cinzas já estende ao longe a vista para levar a destruição a outras partes. Não conserva apego nem amor ao território que cultiva, pois conhece mui bem que ele talvez não chegará a seus filhos."
José Vieira Couto, em 1799

"Daqui se vê a necessidade de proibir-se as derrubadas de matas virgens, nas que são abundosas de almécegas, como também a de vedar-se o soltarem fogos, o que se não poderá conseguir sem fulminar alguma combinação de penas contra os agressores."
Manoel Arruda da Câmara, em 1809

"São raros os cultivadores que escolhem terreno, nele se fixam e procuram tirar dele, por meio do estudo e da experiência, o partido possível; os mesmos que obtêm sesmarias, enquanto há matas que derribar, fazem todos os anos roçados. Por tal método jamais a cultura se aperfeiçoará, porque o homem não emprega diligência alguma e tudo é obra da natureza, e em poucos anos o país apresentará um estado cadavérico, se nos podemos explicar assim, como já acontece em algumas capitanias."
José Severino Maciel da Costa, em 1821

"Se os senhores de terras não tivessem uma multidão demasiada de escravos, eles mesmos aproveitariam terras já abertas e livres de matos, que hoje jazem abandonadas como maninhas. Nossas matas preciosas em madeiras de construção civil e náutica não seriam destruídas pelo machado assassino do negro e pelas chamas devastadoras da ignorância."
José Bonifácio de Andrade e Silva, em 1825

"A influência da escravidão sobre o território e a população que vive dele foi em todos os sentidos desastrosa. (...) O caráter de sua cultura é a imprevidência e a rotina, a indiferença pela máquina, o mais completo desprezo pelos interesses do futuro, a ambição de tirar o maior lucro imediato com o menor trabalho próprio possível, qualquer que seja o prejuízo das gerações futuras."
Joaquim Nabuco, em 1888

e-mail do José Augusto Pádua - padua@ax.apc.org

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