Pensamento Ecológico
apresenta:
José Augusto Pádua
em
As Origens Esquecidas do

Pensamento Ecológico Brasileiro

Tese de historiador demonstra que destruição ambiental
atiçava reflexões de intelectuais desde o período colonial.

Complementação da entrevista ao Jornal do Brasil (arquivo padu04.htm)

É bem conhecida a importância da natureza e da territorialidade, tanto em termos objetivos quanto subjetivos, no processo de construção do fenômeno histórico-cultural que chamamos de "Brasil". Também sabemos do caráter ambientalmente destrutivo dos modelos de produção aqui implantados desde o início da colonização européia. Nos diferentes setores da economia, tais como na agricultura, na pecuária, na mineração e na caça, a dominância das práticas predatórias foi absoluta. Durante mais de quatro séculos a lavoura brasileira fundou-se praticamente em um único método: a queima da floresta tropical. As cinzas desta rica biomassa garantiam uma certa fertilidade durante dois ou três anos, após o que restava apenas um solo exaurido e degradado. Os senhores da terra reivindicavam então a posse de mais sesmarias, alegando que os solos estavam "cansados", e repetiam adiante o mesmo circulo vicioso de novas queimadas e novas requisições. As raízes da concentração fundiária no Brasil, como se vê, tem muito mais a ver com a problemática ecológica do que normalmente se supõe.

A julgar pela literatura internacional sobre a história do pensamento ecológico, no entanto, parece que os brasileiros não foram capazes de perceber as conseqüências do que estava ocorrendo. Nestes livros não encontramos qualquer menção à existência de pensadores brasileiros preocupados com a destruição ambiental ao longo destes séculos. Também na memória cultural do país, pelo menos nas últimas décadas, a existência de pensadores deste tipo é praticamente ignorada. A visão convencional toma a discussão ecológica como um fenômeno recente no cenário nacional, originando-se basicamente da importação de idéias e preocupações elaboradas nos países industriais avançados. Com base neste tipo de imagem, até hoje há quem defenda a tese de que a discussão ecológica é artificial e "fora do lugar" na realidade brasileira.

Nos últimos anos venho realizando um esforço de arqueologia intelectual que subverte completamente o quadro que acabou de ser descrito. A parte inicial desta pesquisa foi defendida como tese de doutorado no final do ano passado, sob o título de "A Degradação do Berço Esplêndido : Um Estudo sobre a Tradição Original da Ecologia Política Brasileira – 1786/1888". Neste trabalho, de forma bastante exaustiva, procurei demonstrar a antigüidade do debate ecológico no Brasil. Levantei cerca de 150 textos de época, produzidos por quase quarenta autores, onde se discute com consistência vários dos temas que ainda hoje nos ocupam, tais como a destruição das florestas, a erosão dos solos, o desequilíbrio climático, o secamento de rios e fontes e a extinção de espécies animais e vegetais. A discussão mais sistemática sobre estes problemas, até onde eu consegui investigar, começou nas últimas décadas do século XVIII. Naquela época, no contexto da Universidade de Coimbra e da Academia das Ciências de Lisboa, um pequeno grupo de intelectuais brasileiros e portugueses começou a refletir seriamente sobre a questão da insustentabilidade ecológica, como hoje diríamos, da economia implantada no Brasil. O principal mentor deste grupo foi o naturalista italo-português Domingos Vandelli, que já em 1789 afirmava que a agricultura praticada no país seria com o tempo "muito prejudicial", já que a fertilidade produzida pela queima dos "antiquíssimos bosques" não era permanente. Seu aluno José Moraes Navarro, escrevendo em Paracatu (MG) no ano de 1799, chegou a observar que muitas vilas e fazendas coloniais estavam sendo abandonadas, porque os agricultores "depois de reduzirem a cinza todas as árvores, depois de privarem a terra da sua mais vigorosa substância" não conseguiam mais produzir em um solo degradado e ocupado por ervas daninhas. Outro membro do grupo, José Vieira Couto, acusava os lavradores brasileiros, na mesma Minas Gerais de 1799, de praticarem uma " agricultura bárbara" , que "com o machado em uma mão e o tição em outra" espalhava pela terra "incêndio e desolação".

Analises deste tipo começaram a ser produzidas em diferentes regiões do país, promovidas por pensadores que chocavam-se com a realidade do Brasil após voltar de seus estudos superiores em Portugal. Entre eles é possível mencionar, além dos já citados, Manoel Arruda da Câmara, Manoel Ferreira da Câmara, Baltazar da Silva Lisboa, Antônio Veloso de Oliveira e João Maciel da Costa. O nome mais conhecido deste grupo inicial, sem dúvida alguma, foi o de José Bonifácio de Andrada e Silva, apesar de poucos conhecerem hoje em dia os seus escritos ecológico-políticos. A crítica ambiental destes autores caracterizava-se por ser essencialmente política. O problema central estava nas ameaças que a degradação do território colocava para a sobrevivência e o desenvolvimento do Brasil. Mesmo antes da idéia da independência impor-se de forma explícita, vários intelectuais e políticos começaram a defender a necessidade de um real desenvolvimento para esta região, que não poderia ocorrer enquanto ela estivesse dominadas por relações de produção e tecnologias atrasadas e rudimentares. Este domínio destruía o principal trunfo com que o país poderia contar para o seu futuro : a enorme riqueza natural do território.

Com base nesta premissa, os autores mencionados começaram a criticar duramente a queima das florestas, o desperdício das lenhas, o desnudamento das encostas, a ausência de técnicas de adubação e proteção do solo, a intervenção desastrada sobre os cursos d’água, o desconhecimento e desinteresse pela biodiversidade local, a concentração e improdutividade da terra, a dizimação dos índios (e de seus conhecimentos sobre o meio natural) e assim por diante. Os mais lúcidos chegaram a colocar o dedo na ferida principal, afirmando que o cuidado ambiental e o progresso sócio-econômico seriam impossíveis enquanto vigorasse o trabalho escravo. Tratava-se, portanto, de uma ecologia progressista e modernizadora, que entendia a destruição ambiental como resultado do arcaísmo colonial, defendendo o desenvolvimento social e tecnológico como o caminho para a sustentabilidade. Era, além disso, uma reflexão ecológica fundada no ideal iluminista do progresso e da razão, passando quase sempre ao largo das visões românticas da natureza.

Este progressismo tecnológico pode soar ingênuo aos olhos atuais. Alguns autores chegavam a defender a tese, por exemplo, de que a industrialização reduziria os problemas ambientais. É importante ressaltar, porém, que o enfoque essencial por eles adotado permanece extremamente valido. Trata-se de tomar as questões ambientais no contexto mais amplo do modelo de sociedade, pensando a mudança na relação com a terra como um componente básico da reconstrução nacional, da busca positiva por um outro tipo de país. Através da obra destes autores, e de muitos outros que deram continuidade ao debate ecológico-político brasileiro até o final do século XIX - como Francisco Freire Alemão, Guilherme Capanema, Emílio da Silva Maia, Tomás Pompeu Brasil, Nicolau Moreira, Joaquim Nabuco e André Rebouças - é possível reconstituir a origem de muitos dos problemas ambientais com os quais hoje nos defrontamos. Recuperando esta tradição intelectual, por outro lado, é possível perceber que a discussão ecológica possui uma identidade profunda na cultura e na política do Brasil. Não é recente a crítica do modelo predatório e iníquo que dominou, e ainda domina, a ocupação social do nosso território. Também não é recente a busca por alternativas que sejam ecologicamente sustentáveis e socialmente benéficas. Esta busca ainda hoje constitui um grande desafio para a cidadania brasileira.

José Augusto Pádua é coordenador do projeto " Brasil Sustentável e Democrático", sediado na FASE. e-mail: padua@ax.apc.org


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