Horroraima
O cocar parabólico
Ilustração de Fernando Lopes

O Xamã vence as chamas!


Pela conexão entre olhar e sentir o pajé sabe. Sabe como sabem os sábios.
Diferente dos sabidos.
Os dados chegam por todas as vias. Parabólicas ou paranormais.
A questão é ter software para ler adequadamente o que chega.
Norbert Wiener, o inventor da cibernética, dizia: "repolho dentro, repolho fora"
Profetizava que não é o aparato instrumental que determina a qualidade de resultado.
Como o time que no papel é genial mas, em campo, dá trombadas.

A língua das matas não tem dialeto. Um caiapó canta para um céu ianomami sob a mesma identidade: são povos da floresta.
Saber ler os sinais do tempo é um requinte para quem está comprometido com esse tempo, esse lugar, essa cultura, essa Vida.
O cocar pode ter extensões bytes de sintonia intraterrena.
Assim, como tecnologia, um arco e flecha seria tão sofisticado, em concepção, eficiência, adequação ao meio e custo, quanto um foguete da Nasa.

O segredo do pajé é saber o jeito da sua terra. Analisa sem fragmentar. Não ver partes mas o porte. São os sinais amorosos de sua relação: troca.
Pode receber dados via laptop ou emiti-los via canto, chocalho, flautim e dança.

A observação da natureza fundamentou o aprimoramento científico da Grécia até a Renascença. Mesmo quando o cisma entre Razão e Sentimento se fez.
Leonardo Da Vinci não via barreiras entre beleza estética e máquinas.
Mona Lisa e helicóptero rimam.

Gilberto Gil entendeu que toda parabólica se parece com um cesto de peixe e soltou o seu Parabolicamará.

E hoje chove sobre este HORRORAIMA.

Uma breve pausa nessa longa quarta-feira de cinzas sobre o país.
Um incêndio que começou há 20 anos quando a ditadura de Médici queria o tal "Brasil Grande" da ocupação desordenada.
Quem dera este incêndio consumisse também a hipocrisia e a arrogância de autoridades que deveriam aprender alguma coisa com os pajés.

A diferença entre SÁBIO e SABIDO, por exemplo.
Ou porque o Almanaque Biotônico Fontoura é bíblia para pescadores e a Folhinha Mariana é infalível em Minas Gerais.

Como lembrete: em junho o sul da Amazônia pode ser o incêndio da vez.
Isso para não falar em outros focos que não os de incêndio:
como os da dengue, por exemplo.

- TT Catalão
da equipe do Correio Braziliense
e colaborador do PECO desde sua primeira fase.
- Fernando Lopes - ilustração


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