Primitivos parabólicos

Há milhares de anos que o homem mira o céu.
Espantoso como ainda se admira o fenômeno natural de um eclipse.
A diferença agora é que o espetáculo tem marketing para faturar natureza e mídia para alimentar a quase histeria que foi esse tal de "fim do mundo"

Os 56 blocos de Stonehenge, que há mais de 4 mil anos desafiam o conhecimento ao norte de Salisbury (Reino Unido), talvez seja o marco mais significativo da ciência unindo observação racional e magia.
Tanto tempo depois nada disso valeu na cobertura de circo que se armou para a farra do fim.
A TV e sua manipulação digital liderou a festa, foi a grande sacerdotisa.
A malvada comedora de criancinhas ao levar tantos pequeninos ao quase pânico.

Eclipse sempre incomodou o poder.
É o poder que tem obcecado apego à vida material para não perdê-la.
Os assírios possuíam cálculos precisos para prever eclipses e talvez tenham sido os responsáveis pela relação entre o fenômeno e mau agouro.
Chegavam a substituir o rei por um falso, às véspera do apagão, para evitar a queda do reino.
O primeiro eclipse total do Sol documentado remonta a 763 a.C. em uma plaqueta assíria.
E o rei não caiu.
Como agora nada acabou.
A não ser o discutível estoque de piadinhas sobre o tema.

Se considerarmos a falta de ferramentas científicas e a dominação de castas sobre a inteligência no passado, daria até para tolerar mistificações sobre eclipse e tragédias.
Mas hoje?
Tivemos a mídia para substituir o charlatanismo e fazer o povinho tremer e balbuciar frases desconexas.
A mídia em seu faro de show jamais obteria "notícia sensacional" com reflexão.
Não abordaria o fim do mundo, por exemplo, pela seguinte ótica:
quando se mata a natureza de todos os dias, o mundo morre aos pouquinhos.
Ou: quando se desrespeitam os direitos humanos básicos de uma pessoa ou um grupo social a raça humana inteira estaria ameaçada.
É exigir muito para o noticiário - mercadoria que se retroalimenta como produto.
A irresponsabilidade que presenciamos na semana que se encerra recaiu principalmente sobre as crianças.
Nem a sordidez dos ratinhos livres causou tanto estrago deflagrado pelas fúteis imagens editadas sem consideração com a concepção crua, direta e limpa da galerinha.
Crianças que não contavam com familiares mais esclarecidos, ou professoras abnegadas que dramatizaram o problema ficaram muito angustiadas pela possibilidade de um fim do mundo mesmo!
Não entendiam como piadinha.
E nada parecia indicar ser uma piada.
Havia montagens, "autoridades", ensaios, enquetes que, para muita gente, soavam sérias.

Considerando o alcance da TV na faixa mais excluída do povo, vejam o quanto de carga negativa foi acumulada junto a dose cotidiana de miséria, fome, violência, degradação e desrespeito que essas crianças sofrem.
Nossa mídia funcionou como mistificadora, quase como o historiador da Grécia antiga, Tucídides, que acreditava que, depois dos eclipses "o mundo sofria devastadores terremotos"

Ao perceberem o pânico infantil, seguraram a onda alarmista, mesmo irônica, e racionalizaram o noticiário.
E daí?
Criança tem percepção concreta e não se distancia muito diante de uma alegoria ou metáfora.
Entendem na veia.
Vejam o personagem Calvin dos quadrinhos que, quando ouve gírias tipo "Papai deu no pé", realiza, em sua cabeça, o pai espancando os dedos e não o pai fugindo de uma situação.
Há criança que tem medo de ser sugada pelos ralos, acha que o sol não vai voltar depois da noite, que a mãe não virá buscá-la no fim da aula etc.
O fim do planeta foi jogado sem o menor critério.
Foi a mais flagrante mostra de que a mídia não é educação.
Nem quer ser isso.

Nossa mídia agiu como tribos orientais que soltavam fogos para "expulsar a sombra sobre o sol" ou espantar "o dragão que comeu o dia" como revelam textos sagrados da dinastia imperial chinesa.
Recuamos séculos fazendo o papel, no tantantan parabólico de egípcios que acreditavam na serpente Apep (Senhora dos Mortos) engolidora do barco solar do deus Ra.

Foi a demonstração nociva de uma tardia idade média high-tech, revelando a mídia como controle e submissão manipuladora.
Ao ficar escrava do entretenimento e ter pavor a contextualização e análise das notícias, os modernos aparatos tecnológicos - onde até a ferramenta Internet se insere - não passaram de bufões assustados como a lenda boliviana do Cão de Sangue, que renasceria no eclipse para devorar humanos ou as antigas crendices iugoslavas sobre vampiros do juízo final.
Caímos no final de juizo irracional.

Mas nem sempre, mesmo para os antigos, eclipse foi tragédia alarmista.
Em 28 de maio de 585 aC., Heródoto fala de um eclipse - previsto por Tales de Mileto - que interrompeu a batalha entre medas e lídios.
Os soldados ficaram tão assustados que interromperam a guerra que já durava cinco anos.
Mas 2025 vem aí e o show não pode parar!
Tomara que as crianças do próximo século já vivam em outro mundo, sem ignorância.
Este sim um mundo obscuro em crônica eclipse.
A sombra mais perversa sobre a humanidade.
Embora pareça tão moderninho com TVs alta definição, coberturas online, impressões magnetizadas etc. e tal.

( TT Catalão )

 

TT Catalão
da equipe do Correio Braziliense.
Colaborador do PECO desde sua primeira fase.


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